De poucos em poucos anos circula na internet um «truque» para aprender línguas depressa, e a maioria é o mesmo truque com outro nome. Tira-lhe a embalagem e o conselho é este: passa muito tempo, todos os dias, a ouvir e a ler coisas que percebes quase por inteiro. Funciona, tem décadas de investigação por trás e hoje é muito mais fácil de fazer do que era para quem o descreveu pela primeira vez.
Pontos-chave
- A hipótese do input de Krashen: adquirimos uma língua ao perceber mensagens um pouco acima do nosso nível, e a gramática e o vocabulário vêm com a compreensão.
- Uma leitura confortável exige conhecer de antemão cerca de 95 a 98 por cento das palavras da página, por isso o nível do material importa mais do que o ar sério que tem.
- Vinte minutos a ouvir e a ler todos os dias valem mais do que duas horas ao sábado, porque o esquecimento é mais acentuado no primeiro dia.
O que é o input compreensível?
O linguista Stephen Krashen passou a carreira a defender aquilo a que chamou hipótese do input: adquirimos uma língua ao perceber mensagens, e a gramática e o vocabulário vêm com a compreensão. No seu próprio resumo das provas, quem lê e ouve extensivamente, por prazer, a um nível que consegue acompanhar, obtém melhores resultados do que quem gasta o mesmo tempo em exercícios repetitivos.
A palavra-chave é compreensível. O input que não percebes é ruído; um podcast numa língua que nunca estudaste não te ensina nada, por mais tempo que o deixes a tocar. O input que percebes na totalidade é confortável, mas ensina pouco. O ponto certo é um material em que acompanhas a história e encontras um punhado de palavras novas por parágrafo. Quem aprende línguas chama-lhe «i+1»: o que já sabes, mais um passo.
O truque, tal como os fóruns o descrevem
Nos fóruns de aprendizagem de línguas, a receita concreta é conhecida como método de ouvir e ler, ou L-R. O texto original recomenda um livro com versão áudio: ouves a gravação enquanto lês o texto, primeiro com uma tradução à mão e depois só com o original. Vinte a quarenta horas disto, garante o autor, chegam para passar do zero a acompanhar áudio de nativos, e muitas pessoas que experimentaram relatam algo parecido.
Porque é que juntar as duas coisas funciona melhor do que cada uma em separado?
- A leitura apoia a audição. A fala de um nativo é rápida e pouco nítida; o texto escrito diz ao ouvido onde acaba uma palavra e começa a seguinte. Ao fim de algumas horas começas a ouvir as fronteiras sem o texto.
- A audição apoia a leitura. A voz diz-te como as palavras soam de facto, por isso o que lês em silêncio fica guardado com a pronúncia certa, e não com a que inventaste.
- Volume. Assim consegues absorver milhares de palavras por hora, muitas vezes mais do que qualquer exercício dá. O vocabulário cresce com encontros repetidos, e os encontros precisam de volume.
O que a investigação acrescenta
Krashen não está sozinho. O trabalho de Paul Nation sobre vocabulário mostra que as palavras se aprendem sobretudo através de encontros repetidos em contexto e que uma leitura confortável exige conhecer de antemão cerca de 95 a 98 por cento das palavras, e é precisamente por isso que o nível do material importa tanto. Os estudos sobre programas de leitura extensiva encontram ganhos não só na velocidade de leitura, mas também na compreensão oral e até na fala, porque as mesmas palavras ficam disponíveis para produção depois de as teres encontrado vezes suficientes.
Nada disto quer dizer que estudar gramática ou praticar a fala seja inútil. Quer dizer que o input é a base em que assentam, e é na base que principiantes e alunos de nível intermédio costumam poupar.
Como fazer isto todos os dias
- Escolhe material de que gostes mesmo. É o interesse que te leva até à centésima hora. Um texto de manual aborrecido perde sempre para uma história ligeiramente interessante.
- Mantém-te no teu nível. Se não consegues acompanhar a história, escolhe algo mais fácil. Sofrer com material difícil é mais lento do que avançar sem esforço em material fácil, mesmo que pareça mais sério.
- Combina os canais. Lê com áudio. Vê com legendas na língua que estás a aprender. Ouve algo que já leste.
- Faz disto um hábito diário e conta minutos, não páginas. Vinte minutos todos os dias valem mais do que duas horas ao sábado, por razões que a curva do esquecimento explica bem.
- Deixa passar a maioria das palavras novas. Guarda as poucas que interessam; as outras vais voltar a encontrá-las no texto seguinte. A leitura é o sítio onde as palavras se encontram; o baralho de revisão é onde se guardam as importantes.
É para isto que servem as secções de leitura e de filmes
As funcionalidades de conteúdo do LinguaPair são um fornecimento diário de input compreensível com os canais já combinados.
- A leitura dá-te um texto escrito para o teu nível, com narração e destaque palavra a palavra, por isso ouvir e ler não exige nenhuma preparação: carrega no play e vai lendo. Basta um toque numa palavra para ver o que significa; as que decidires aprender entram na repetição espaçada.
- Os filmes transformam um filme ou uma série que irias ver de qualquer maneira em input: a app pega nas legendas e entrega um conjunto de palavras que vale a pena aprender a partir das cenas, dia a dia, com um questionário para as confirmar.
- O tradutor é input de outro tipo: uma conversa com o teu parceiro, traduzida em direto, em que cada frase é algo que querias mesmo dizer ou ouvir.
O ritmo é diário de propósito. Chega um texto novo todos os dias no Premium (semanal no plano gratuito); as palavras dos filmes vêm em doses diárias. Aparece, lê e ouve durante vinte minutos, e o truque faz o resto.
