No dia em que o teu parceiro estrangeiro conhece os teus pais, quem mais trabalha és tu. Ele está nervoso, os teus pais estão curiosos e falam mais depressa do que pensam, e no meio disto cabe-te traduzir, explicar e ainda perceber o ambiente à mesa. A boa notícia: meia dúzia de frases ditas por ele mudam o almoço inteiro. Ninguém se vai lembrar do sotaque. Vão lembrar-se de que tentou.
Aqui tens trinta frases para lhe ensinar, como preparar os teus pais e o teu parceiro, o que traduzir no dia e como, e um plano de duas semanas para os dois.
O essencial
- Dez frases bem ditas valem mais do que trinta decoradas pela metade. Escolham juntos as que combinam com a tua família.
- Os teus pais também precisam de preparação: falar devagar, um de cada vez, com menos piadas internas e menos frases a meio.
- És intérprete e também tradutor de cultura. Traduz a intenção, não só as palavras.
30 frases para ensinar
Quem aprende português costuma começar por um registo neutro, de livro. Para a família, vale a pena ensinar também as formas de respeito que usamos mesmo, e sobretudo o tratamento: o teu parceiro não tem de perceber a diferença entre tu, você e o senhor num dia, mas tem de saber qual usar com os teus pais. Para cada frase, diz-lhe quando a usar: assim fixa muito mais depressa. ○○ marca um nome ou uma palavra para completar.
Cumprimentos
| Frase | Quando usar | Dica para ensinar |
|---|---|---|
| Boa tarde! Como está? | À porta, com os beijinhos | Explica o como está? na terceira pessoa. E que antes do almoço é bom dia |
| Muito prazer! | Ao ser apresentado | Treina o muito nasal, que nenhum estrangeiro espera |
| Sou o ○○ / a ○○. | Na apresentação | Diz-lhe que o artigo antes do nome é normal aqui |
| Tenho muito gosto em conhecê-los. | Logo a seguir | Se for comprida, muito prazer já chega |
| O ○○ fala-me muito da família. | Quando os pais perguntam por ti | Os pais gostam sempre de ouvir esta. Com a se fores mulher |
| Obrigado pelo convite. | Ao entrar na sala | Obrigado para homem, obrigada para mulher |
Tratamento e pedidos
| Frase | Quando usar | Dica para ensinar |
|---|---|---|
| Senhor ○○, Dona ○○ | Para chamar os teus pais ou avós | Diz-lhe a forma que a tua família usa mesmo, e o primeiro nome que vai a seguir |
| Trouxe-lhes uma lembrança. | Ao entregar o presente | O lhes depois do verbo é difícil: treina como um bloco |
| Ainda estou a aprender o português de cá. | Quando a conversa acelerar | Dito cedo, faz a família abrandar |
| Pode falar um bocadinho mais devagar, por favor? | Quando não perceber | Pedir não é falta de educação. Treinem o tom simpático |
| Desculpe, pode repetir? | Quando perder uma frase | É melhor repetir do que sorrir sem perceber |
| Como é que se chama isto? | A apontar para um prato ou um objeto | Os teus pais passam a professores e o ambiente descontrai |
À mesa
| Frase | Quando usar | Dica para ensinar |
|---|---|---|
| Que casa tão bonita! | Ao chegar à sala | Um elogio à casa agrada sempre |
| Cheira muito bem! | Quando a comida vem para a mesa | Elogiar antes de provar já conta |
| Está uma delícia! | Depois da primeira garfada | Sem esperar que lhe perguntem |
| Foi a senhora que fez? | Para quem cozinhou | Abre a conversa sobre a receita. A um homem, foi o senhor |
| Só mais um bocadinho, se faz favor. | Quando lhe oferecem mais | Explica que um não à primeira quase nunca é aceite |
| Pode passar-me o ○○, se faz favor? | Para pedir algo à mesa | O pronome vem depois do verbo; treina passar-me de uma vez |
| Já estou satisfeito, obrigado. | Quando já não aguentar mais | Mostra que dá para recusar com carinho |
| Posso ajudar a levantar a mesa? | Depois da refeição | Mesmo que digam que não, a oferta conta |
Conversa
| Frase | Quando usar | Dica para ensinar |
|---|---|---|
| Sou de ○○. | Quando perguntarem de onde é | A cidade dá mais conversa do que o país |
| Trabalho em ○○. | Quando perguntarem pelo trabalho | Procurem juntos o nome da profissão |
| Estou a gostar muito de Portugal. | Quando perguntarem o que acha | Um exemplo concreto, uma comida ou uma cidade, ajuda |
| Conhecemo-nos em ○○. | Quando perguntarem como se conheceram | O -nos depois do verbo pede treino. Ensaiem a versão curta |
| O ○○ é muito especial para mim. | Quando o assunto for o casal | Frase curta, efeito enorme. Com a se fores mulher |
Agradecer e despedir-se
| Frase | Quando usar | Dica para ensinar |
|---|---|---|
| Muito obrigado por tudo. | Antes de se levantar | Serve também para a comida que lhe metem na mão para levar |
| Foi um prazer conhecê-los. | Na sala, já de pé | Fecha bem o primeiro encontro |
| Está a ficar tarde, temos de ir andando. | Para começar a ir embora | Mostra que percebeu o ritmo da visita |
| Espero vê-los em breve. | À porta | Os teus pais vão lembrar-se desta |
| Até à próxima! | À saída | Com beijinhos outra vez. Uma mensagem no dia seguinte é um bónus |
O que combinar com os teus pais
- O nível real do português dele. «Fala um bocadinho» e «consegue conversar» são coisas diferentes. Expectativas certas evitam desilusões dos dois lados.
- Devagar e um de cada vez. O nosso português engole as vogais átonas, e isto é o que mais custa a quem aprende, mesmo quando sabe as palavras. Pede uma conversa mais pausada pelo menos na primeira hora.
- O cumprimento. Se os teus pais forem dar dois beijinhos, avisa-o. Se ele estender a mão, ou se vier de um país onde não há beijinhos, não é frieza.
- O tratamento. Se preferirem tu desde o início, que o digam eles. Ele não vai adivinhar, e ficará em o senhor e a senhora com todo o respeito até alguém dizer trata-me por tu.
- Comida sem pressão. Avisa sobre alergias, restrições ou religião, e pede que não insistam três vezes quando ele disser que está satisfeito.
- As perguntas de sempre. «Então, quando é o casamento?» e «e os netos?» são brincadeira para a família e pressão para quem acabou de chegar.
O que explicar ao teu parceiro
- O cumprimento. Dois beijinhos, um em cada face, entre mulheres e entre homem e mulher; aperto de mão entre homens. Espera sempre que o mais velho avance.
- O tratamento. O senhor, a senhora, Senhor ou Dona com o primeiro nome, ou só o verbo na terceira pessoa. O você a seco pode soar brusco, mesmo que nos manuais pareça neutro. Se alguém da família gostar de títulos, como Senhor Doutor ou Senhor Engenheiro, diz-lhe antes.
- A hora. À hora combinada ou até dez a quinze minutos depois, nunca antes. E que deixe a tarde livre, porque o almoço de domingo tem sopa, prato, sobremesa e café.
- A comida. Vão insistir, e tudo bem aceitar um bocadinho. Também é normal mandarem comida para casa: é carinho.
- A ajuda. Oferecer ajuda para levantar a mesa conta, mesmo que digam não. Na cozinha, só se o convidarem.
- O que não é literal. «Fica à vontade» é a sério. «Temos de combinar» é gentileza, nem sempre convite com data. Explica antes que ele apareça mesmo.
No dia: o que traduzir e como
Não tentes traduzir tudo, senão passas o almoço a ser intérprete. Dá prioridade às perguntas dirigidas a ele e aos momentos de emoção; o resto pode ser resumido.
- Ironia e brincadeira, com contexto. «Então é este que nos vem roubar a filha?» precisa de um «está a brincar» ao lado.
- Exagero carinhoso, como exagero. «Estás tão magrinho, come mais» não é uma crítica ao corpo dele.
- Os silêncios. Se os teus pais demoram a abrir-se, diz-lhe que não é frieza: é o ritmo de cá.
- A resposta direta dele, com suavidade. «Não gosto de bacalhau» pode passar a «ainda está a habituar-se ao bacalhau», e não é mentira.
- A regra. Para os pais, traduz o coração do parceiro; para o parceiro, a intenção dos pais.
- Também estás na conversa. Quando ele conseguir falar sozinho, espera e deixa-o falar.
Duas semanas de treino a dois
- Dias 1–3: a porta. Fazes o papel dos teus pais, ele cumprimenta e apresenta-se, três vezes por dia, com os beijinhos.
- Dias 4–6: a mesa. Em todas as refeições em casa, cheira muito bem, está uma delícia e só mais um bocadinho, se faz favor.
- Dias 7–9: as perguntas. Fazes as perguntas que os teus pais vão certamente fazer, à velocidade real, e ele responde curto.
- Dias 10–12: o ensaio geral. Da campainha até está a ficar tarde, com o presente e o café.
- Dias 13–14: o acabamento. Corrige um único som por frase e escolham juntos as dez que ele vai usar.
Como o LinguaPair vos ajuda
O LinguaPair foi feito para casais como vocês, em que cada um aprende a língua do outro. Convidas o teu parceiro e as duas contas passam a ser uma dupla: ele segue o curso de português europeu, o de Portugal, e tu o curso da língua dele, cada um em lições curtas, com os níveis A0 e A1 gratuitos, e cada um vê o nível e a sequência do outro. Os jogos um contra o outro, duelos de tradução e corridas de vocabulário, são feitos com as vossas palavras, por isso dá para competir com as frases acima. E no dia, o tradutor ao vivo funciona num só telemóvel em cima da mesa: os teus pais e o teu parceiro falam cada um na sua língua e cada frase é traduzida na hora, e tu sais um pouco do papel de intérprete para participares na conversa. As palavras dessas conversas vão para o treinador de vocabulário, material para a visita seguinte. Os jogos e a tradução ilimitada fazem parte do Premium, e uma subscrição cobre os dois.
Se agora és tu quem vai conhecer a família dele, vê como conhecer pais italianos ou pais hispanófonos. Para um parceiro brasileiro a conversa é outra: vê conhecer os pais brasileiros. Se vier aí um casamento, continua com um brinde e votos na língua do teu parceiro e, para as primeiras palavras de amor, vê como dizer «amo-te» na língua do teu parceiro.
